Zonas de Treinamento para Prescrição de Treino pela Frequência Cardíaca. Quantas e Quais?
São muitas variáveis e indicadores que podemos utilizar para prescrever exercício aeróbio. Entre eles, destaca-se a frequência cardíaca, visto que cada vez mais temos equipamentos com preços acessíveis para monitorá-la. Neste artigo vamos elucidar o que são zonas de treinamento pela frequência cardíaca e quais os principais métodos propostos na literatura científica.
Treinamento Aeróbio
O treinamento aeróbio é a base de muitos esportes, especialmente os cíclicos de resistência como ciclismo, corrida, remo e natação e os acíclicos de predominância aeróbia como futebol, futsal, basquetebol e rugbi.
Também é essencial para aumentar e manter a saúde cardiovascular geral. Para treinadores e professores de Educação Física prescrever a intensidade certa é crucial para maximizar os ganhos de desempenho e saúde minimizando o risco de lesões ou sobretreino.
Um dos métodos mais eficazes e apoiados pela ciência para orientar o treinamento aeróbio é a utilização de zonas de treinamento a partir da frequência cardíaca.
Neste artigo, vamos apresentar algunso modelos de zonas de treinamento a partir da frequência cardíaca que são propostos na literatura científica.
O que são zonas de treinamento aeróbio pela FC?
As zonas de treinamento aeróbio são faixas de intensidade relativa (% da Frequência Cardíaca Máxima % da FC de reserva ou % do VO2máx) que são utilizadas na prescrição de exercício aeróbio.
A descrição dessas zonas varia de acordo com diferentes autores, normativas, guias gerais (guidelines de sociedades biomédicas), pesquisadores e treinadores. Prescrever a intensidade de exercício com base nas zonas de FC, portanto, é complexo e controverso. Não há consenso com relação a qual método é melhor.
A descrição das zonas de intensidade de treinamento, que variam de 3 a 7, tem sido estipuladas observando-se as respostas metabólicas durante o exercício realizado em cada uma.
Para identificar as zonas de treinamento é necessário realizar um teste progressivo máximo com monitoramento da FC, pois assim é possível anotar qual a frequência cardíaca máxima atingida pelo indivíduo.
Objetivos do Artigo
Elucidar quais são os principais modelos de zonas de treinamento aeróbio e a sua base teórica
Principais modelos de zona de treinamento
Modelo de 3 zonas (80 a 100%)
O modelo de distribuição de intensidade de treinamento divide a intensidade em 3 zonas.
A zona 1 fica abaixo do primeiro limiar de lactato (LT1), o limiar de troca gasosa (GET) e/ou o limiar ventilatório (VT), que seria por volta de 80% da FCmáx. Aqui o exercício seria considerado leve.
A zona 2, onde o exercício é moderado, fica entre 80 a 90% da FCmáx e entre os limiares de lactato 1 e 2.
A zona 3, de intensidade pesada, é demarcada pelo segundo limiar de lactato (LL2), ponto de compensação respiratória (RCP) e/ou o máxima fase estável de lactato (MLSS), que seria > 90 da FCmáx.
Esse é um modelo básico para identificar domínios fisiológicos, conforme eu já expliquei nesse artigo aqui.
Figura 1 - Modelo de 3 zonas baseado nos limiares de lactato
Modelo de 5 zonas (50 a 100%)
O modelo de cinco zonas para prescrição de exercício aeróbio é um modelo básico, onde as faixas propostas são simples, de 10% em 10%. É um guia inicial para orientar o treinamento, promovendo a saúde cardiovascular e o desempenho, especialmente quando não há dados do teste progressivo máximo realizado pelo praticante.
Ele divide a intensidade do exercício em diferentes zonas de frequência cardíaca, cada uma com respostas fisiológicas e benefícios específicos.
Estudos recentes destacam a importância de utilizar essas zonas, especialmente para quem retoma atividades após períodos de sedentarismo ou durante reabilitação cardíaca.
As cinco zonas são classificadas da seguinte forma:
Zona 1: Atividade muito leve (50-60% da FCmáx)
Zona 2: Atividade leve (60-70% da FCmáx)
Zona 3: Atividade moderada (70-80% da FCmáx)
Zona 4: Atividade intensa (80-90% da FCmáx)
Zona 5: Esforço máximo (90-100% da FCmáx)
Cada zona é projetada para gerar adaptações fisiológicas específicas. Estudos indicam que o exercício físico regular em zonas de intensidade moderada a vigorosa (Zonas 3 e 4) é essencial para melhorar a aptidão cardiorrespiratória.
Evidências mostram que participantes que se exercitam nessas faixas apresentam resultados cardiovasculares significativamente melhores (Brown, 2014; Macko et al., 2001).
American College of Sports Medicine (ACSM) - 5 zonas
O ACSM, que publica orientações gerais (guidelines) frequentemente, propõe 5 zonas: muito leve, leve, moderado, vigoroso, próximo do máximo e máximo.
Esse modelo é utlizado para prescrição de exercício aeróbio com foco em saúde e melhora da aptidão cardiorrespiratórioa de pessoas não-atletas. Neste modelo as zonas de FC são baseadas em valores em que provavelmente os praticantes atingem intensidades próximas aos limiares de lactato, no caso o LL1 no moderado e LL2 no vigoroso.
Classificação
|
Intensidade
Relativa |
Perto do
máximo até máximo |
≥ 95% FCmáx, ≥
90%FCres |
Vigoroso |
77-95% FCmáx,
60-89% FCres |
Moderado |
64-76% FCmáx,
40-59% FCres |
Leve |
57-63% FCmáx,
30-39% FCres |
Muito Leve |
<57% FCmáx,
<30% FCres |
5 zonas de FC a partir dos limiares de lactato
Esse modelo foi criado a partir de indicadores submáximos de intensidade, ou seja, o primeiro (LL1) e segundo limiar de lactato (LL2), derivados de um teste progressivo máximo.
É muito aplicado para treinamento e de atletas de modalidades de endurance, como ciclismo e corrida.
As faixas propostas são baseadas em % da FCmáx onde acontecem os limiares de lactato 1 e 2, ou seja, no L2 é o % da FCmáx onde provavelmente encontra-se o LL1 e no L4 aconteceria o LL2.
Figura 2 - Modelo de 5 zonas baseado nos limiares de lactato.
Classificação |
Intensidade
Relativa |
L1 - recuperação |
65-75% FCmáx |
L2 – Endurance extensivo |
75-80% FCmáx |
L3 – Endurance
intensivo |
80-85% FCmáx |
L4 – Treino no
limiar |
85-92% FCmáx |
L5 –
Treinamento Intervalado |
> 92%
FCmáx |
Modelo de 6 zonas para corredores bem treinados
Para atletas de endurance é necessário ter mais precisão na prescrição da intensidade, pois o volume a ser realizado em cada zona é normalmente alto. O modelo de 3 zonas pode abranger respostas fisiológicas e metabólicas diferentes em cada zona, pois a possibilidade de intensidades é mais ampla. Assim, autores como Casado et al., (2023) propuseram o modelo de 6 zonas para identificar estímulos de treinamento mais específicos, conforme a tabela abaixo.
Zona |
% FCmáx |
Método de Treinamento |
SST |
Máxima |
Sprint |
VHIT |
> 97% |
Tolerância ao Lactato |
HIT |
92-97 |
Treinamento Aeróbio Intervalado
Intensivo |
MIT |
87-92 |
Treinamento de limiar (pace de
10.000 m) |
MIT |
82-87 |
Treinamento de Limiar (Contínuo,
intervalado, pace de maratona) |
LIT |
62-82 |
Treinamento de baixa intensidade |
Modelo de 7 zonas para corredores bem treinados (Haugen et al., 2022)
Esse modelo é ancorado no ritmo (pace) de provas específicas do atletismo e reflete as práticas de treinamento de diversos corredores de nível mundial.
Zona |
% FCmáx |
Método de Treinamento |
7 |
|
Sprints máximos, progressivos e
com inclinação |
6 |
|
Tolerância ao Lactato, treinos
com inclinação |
5 |
>93 |
Intervalos no VO2max, competição,
séries com inclinação |
4 |
88-92 |
Intervalos no VO2max, competição,
séries com inclinação |
3 |
83-87 |
Treinamento de limiar, intervalado,
fartlek, competição |
2 |
73-82 |
Séries longas, corridas com
inclinação, corridas progressivas |
1 |
60-72 |
Aquecimento, volta à calma,
corridas longas de baixa intensidade |
Considerações finais
Embora o volume de treinamento seja simples de quantificar, a medição da intensidade do treinamento é mais complicada. A ciência do esporte recomenda que as escalas/zonas/domínios de intensidade devem ser baseadas em parâmetros fisiológicos (por exemplo, zonas de FC e de VO2máx e limiares de lactato ou ventilatórios) ou carga externa (velocidade e potência), mas nenhum consenso foi estabelecido até agora.
Eu penso que essa falta de consenso é consistente com uma verdade desconfortável até agora: nenhum parâmetro de intensidade individual tem uma precisão satisfatória isoladamente como um guia de intensidade, devido a
(1) interações individuais entre intensidade-duração e desacoplamento entre carga de trabalho interna e externa. Por exemplo, os indivíduos respondem com frequências cardíacas diferentes para a mesma velocidade ou potência.
(2) variação individual e diária. Em situações diferentes o mesmo indivíduo responde com FC diferente para a mesma carga externa (velocidade ou potência), dependendo do estresse psicológico, sono, doença, entre outros fatores.
(3) respostas de sobrecarga que podem ser transferidas de treinos anteriores e interromper transitoriamente esses relacionamentos.
Consequentemente, combinar carga externa (velocidade) e carga interna (Frequência Cardíaca) regularmente durante o treinamento fornece uma triangulação de características de intensidade que é provavelmente complementar e mais informativa.
Qualquer que seja o parâmetro de intensidade escolhido, descrever e comparar características de treinamento requer uma escala de intensidade comum.
Na verdade, os sistemas de zonas de intensidade padronizados são ferramentas imperfeitas e têm sido criticados por várias razões. No entanto, as potenciais fontes de erro parecem ser superadas pela comunicação melhorada entre o treinador e o atleta que uma escala comum facilita
Todas os modelos de zonas de intensidade aqui descritos podem ser usados como guias para treinadores, atletas e praticantes de exercício físico como referencial básico.
Referências
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